Origens Históricas da Índia - Harappa e Mohenjo-Daro

Quando Alexander Cunningham chegou pela segunda vez a Harappa, durante o inverno de 1873, as pesquisas arqueológicas sobre a Índia ainda engatinhavam. Vinte anos antes, ele fora nomeado diretor da recém-fundada Sociedade Indiana de Arqueologia e visitara aquele sítio arqueológico, conjunto de construções de tijolos cozidos em vias de desintegração, que se estende ao longo de quatro quilômetros às margens do rio Ravi, um dos cinco afluentes do Indo na região do Pendjab. Ele ficara sabendo da existência da antiga cidade de Harappa por meio do diário de um desertor do exército britânico, viajante incansável, que adotara o codinome Charles Masson, no lugar do seu verdadeiro nome, James Lewis. Esse homem havia descoberto o lugar em 1826, durante suas peregrinações através do Pendjab, região coberta de florestas e pântanos, situada a noroeste do Paquistão. O sítio era então dominado por "urna cidadela de tijolos em ruínas" e por um "monte rochoso escarpado, ostentando em seu topo restos de construções e de paredes com nichos, à maneira oriental." "As muralhas e torres da cidadela", escreveu Masson,-"são muito altas e, devido ao abandono em que se encontram há tanto tempo, apresentam aqui e ali rachaduras e outras marcas da passagem dos séculos".
Se a descrição de Harappa feita por Masson correspondia ao que Alexander Cunningham encontrou em 1853, já não seria a mesma vinte anos depois. Em 1873, com efeito, já não havia nenhum sinal da cidadela, pois os operários que tinham trabalhado na construção da estrada de ferro entre Lahore e Multan haviam utilizado os tijolos de barro cozido como lastro para assentar os dormentes. Um levantamento da via férrea permitiu concluir que foram retirados de Harappa e de outras ruínas antigas adjacentes tijolos em quantidade suficiente para proporcionar lastro para 160 quilômetros de linha. Cunningham empreendeu algumas escavações, na tentativa de salvar o que restava da cidade de Harappa. Mas, infelizmente, devido ao estado lamentável em que se encontrava o lugar, as pesquisas logo tiveram de ser interrompidas. Os arqueólogos fizeram uma única descoberta digna de interesse: um sinete quadrado de esteatita, do tipo usado pelos antigos habitantes de Harappa para imprimir sua "assinatura" na argila úmida. O objeto apresentava a imagem entalhada de um touro, emoldurada por seis sinais gráficos pertencentes a um sistema de escrita desconhecido. Considerando a figura bem particular do animal, sem a corcova característica do zebu indiano, e a singularidade dos sinais gráficos, tão diferentes do sânscrito, Cunningham chegou à conclusão de que o sinete era de origem estrangeira. Foi necessário esperar pelo ano de 1914 para que outro especialista em arqueologia, o humanista John Marshall, organizasse novas pesquisas. Infelizmente a Primeira Guerra Mundial eclodiu logo depois, e somente em 1920 é que um membro da Sociedade Indiana de Arqueologia, Rai Bahadur Ram Sahni, retomou as escavações no ponto em que Cunningham as havia deixado. Como ocorrera da primeira vez, os resultados foram novamente decepcionantes, já que ele não encontrou senão mais dois sinetes.
John Marshall teria se desinteressado do assunto se R. D. Banerji, um dos membros de sua equipe, não tivesse feito, no ano anterior, uma descoberta de grande importância. Em 1919, durante uma missão de reconhecimento nas terras áridas que margeiam a área à esquerda do rio Indo, Banerji localizou uma estupa budista 560 quilômetros ao sul de Harappa, em Mohenjo-Daro. Em volta do monumento, até onde a vista podia alcançar, viam-se montículos de tijolos em ruínas, provavelmente marcando o lugar de uma imensa metrópole outrora muito próspera.
Uma escavação preliminar abaixo da estupa revelou cinco níveis de ocupação. Graças a moedas encontradas na camada superior, foi possível determinar que esta remontava ao século li da era cristã. Quanto às camadas inferiores, embora não apresentassem nenhum elemento capaz de facilitar a datação, ofereceram em contrapartida várias peças importantes, como objetos de cobre gravados e três sinetes de esteatita recobertos de uma camada de álcali cozido, que lhes conferia um aspecto branco e lustroso. Os três sinetes, um dos quais representando um unicórnio, estavam também emoldurados por símbolos pictográficos indecifráveis.
Banerji lembrou-se do sinete exumado por Cunningham nas ruínas de Harappa a centenas de quilômetros ao norte de Mohenjo-Daro. Haveria alguma ligação entre as duas cidades? John Marshall solicitou o envio dos três sinetes, de modo que pudesse compará-los com os encontrados em Harappa. O exame foi conclusivo. "Não resta dúvida de que os objetos encontrados nos dois sítios datam aproximadamente do mesmo período e pertencem a culturas com graus semelhantes de evolução" - escreveria ele mais tarde - "e não se parecem com nada até hoje encontrado na Índia". Entretanto, continuava a ser um mistério a idade daqueles sinetes.
Em 1924, John Marshall decidiu publicar fotos dos sinetes na revista The Illustrated London News, na qual os arqueólogos britânicos da época gostavam de discutir seus problemas técnicos. Ele esperava que seus confrades ingleses e estrangeiros pudessem trazer-lhe algum esclarecimento sobre a antiguidade e a origem desses objetos misteriosos. As fotos ilustravam um artigo no qual Marshall insistia na importância que a Sociedade Indiana de Arqueologia conferia aos achados. "Não é todo dia que os arqueólogos têm possibilidade de revelar vestígios de Uma civilização desaparecida há tanto tempo, como foi o caso de Schliemahn em Tróia, e Micenas. Mesmo assim, parece que estamos nesse momento em vias de fazer uma descoberta de importância capital nas planícies que margeiam o Indo. Tudo o que sabemos sobre o passado da Índia até o presente não nos permite fazer remontar sua história até o terceiro milênio antes da nossa era. Mas os objetos que acabam de ser exumados nada têm a ver com os que foram encontrados antes”.
Marshall obteve uma resposta na edição seguinte. The Illustrated London News publicou uma carta de A. H. Sayce, professor da Universidade de Oxford e especialista em história da Assíria, em que este apresentava semelhanças entre os sinetes do Indo e outros sinetes encontrados no Iraque, nos sítios mesopotâmicos. Essa primeira reação foi seguida de outra ainda mais surpreendente, provinda do Dr. Ernest Mackay, diretor da expedição arqueológica americana ao antigo reino mesopotâmico de Kisch: eles haviam encontrado um sinete absolutamente idêntico aos de Harappa e de Mohenjo-Daro sob um templo dedicado ao deus da guerra, Ilbaba, que devia remontar aproximadamente ao ano 2300 a. C.
Ao que parecia, Harappa e Mohenjo-Daro não apenas eram do terceiro milênio a.C. mas também haviam mantido relações de troca com a Mesopotâmia. Entretanto, ignorava-se praticamente tudo sobre qualquer civilização urbana do noroeste da Índia, sua escrita, modo de vida, organização social e política, crenças e religião. O segredo desses enigmas deveria encontrar-se em algum lugar da planície do Indo.
Por essa razão, a Sociedade Indiana de Arqueologia lançou em 1925 um vasto programa de escavações. No sítio de Harappa, as buscas foram limitadas, devido aos danos causados pela implantação da estrada de ferro. Felizmente, a cidade de Mohenjo-Daro foi preservada, pois o vento depusera sobre ela camadas de areia e limo, que a protegeram dos danos causados pelo tempo e pelo homem. John Marshall consagrou-se então ao estudo da cidade mais bem preservada, uma das duas grandes metrópoles da civilização de Harappa. Construiu-se para isso uma pequena cidade com escritórios, salas de pesquisa e alojamentos, em meio às touceiras de ervas que cobriam Mohenjo-Daro. Durante seis anos, ali viveram nada menos que oitocentos operários, comandados por uma equipe de técnicos e por seis representantes da Sociedade Indiana de Arqueologia.
Graças à rapidez com que avançavam os trabalhos, os arqueólogos logo puderam ter uma idéia do plano de conjunto da aglomeração, que testemunhava um grau de urbanismo sem paralelo no mundo do terceiro milênio. Mohenjo-Daro era dividida em várias partes, entre elas uma plataforma artificial de treze metros de altura, chamada "cidadela", protegida por uma muralha dotada de ameias e dominando a cidade. Grandes artérias, orientadas na direção norte-sul, com cerca de dez metros de largura, cruzavam em ângulo reto, a cada 200 metros, com ruas que seguiam a direção leste-oeste. Esse traçado dividia a metrópole em quadriláteros, no interior dos quais havia um emaranhado de ruelas sem plano preciso, com larguras variando entre um metro e meio e três metros. Harappa, que também ostentava uma planificação igualmente avançada, foi construída com um conjunto de pequenas elevações, dominado por uma cidadela, e um quadrilátero de avenidas orientadas na direção norte-sul, delimitando amplos bairros.
As casas de moradia e os edifícios públicos localizados sobre as elevações eram construídos com tijolos de barro do mesmo formato, cozidos ou secos ao sol, assentados "com tal precisão que dificilmente se poderia fazer melhor com as técnicas modernas", relata Marshall. Estavam edificados sobre fundações sólidas e em geral comportavam dois níveis. A maior parte apresentava fachadas cegas, característica da arquitetura urbana observada no Oriente Próximo e que tem a vantagem de proteger a casa dos rigores do clima, do barulho, dos odores, dos vizinhos curiosos e dos ladrões. A entrada principal, à qual se tinha acesso por uma ruela situada na parte de trás das casas, abria-se para um grande vestíbulo e para um pátio - certamente ornado por uma sacada de madeira - que levava aos diferentes cômodos da moradia; uma escada de tijolo conduzia ao andar superior e ao telhado. A luz e o ar entravam por janelas dotadas de grades de madeira, terracota ou alabastro. Muitas casas dispunham de seus próprios poços, e as que não tinham valiam-se dos poços públicos localizados nas ruas largas, que formavam uma grande rede de canalizações de água potável e de esgotos sem equivalente na Antiguidade.
Os arqueólogos viram surgir pouco a pouco diante de seus olhos painéis inteiros de uma brilhante civilização, notável tanto por seu nível técnico quanto por sua uniformidade. A julgar pelos objetos encontrados nas casas e nas sepulturas de Mohenjo-Daro e de Harappa, acredita -se que os habitantes das duas grandes metrópoles utilizavam os mesmos tipos de utensílios e ferramentas de cobre, de bronze e de sílex, e fabricavam os mesmos ornamentos sofisticados de ouro, pérola, cornalina, madrepérola, terracota, lápis-lazúli e turquesa.
Entretanto, estamos ainda longe de haver esclarecido todas as questões levantadas pelas civilizações do Indo. John Marshall, por exemplo, não conseguiu encontrar sequer uma prova irrefutável da existência de uma elite dirigente, embora tudo leve a crer que existisse uma forma de planificação central e de controle político. As construções de Harappa dão poucas informações aos arqueólogos, pelo fato de se encontrarem muito danificadas pela sanha dos construtores da estrada de ferro, mas em contrapartida uma grande parte das construções de Mohenjo-Daro oferece dados bem eloqüentes. Algumas parecem muito amplas para residência, e podem ter servido como palácio governamental ou monumento religioso.
Além do mais, nem sempre se conseguiram decifrar os sinetes harappianos, de que sempre se encontravam exemplares. De onde procederia esse povo tão engenhoso, dispondo de tal sistema de escrita pictográfica e de tão apurado senso de urbanismo, e parecendo surgir do nada?
Em sua grande maioria, os primeiros pesquisadores a se interessar pela civilização urbana do Indo explicaram o enigma de sua aparição pela súbita difusão de "idéias civilizadoras" no vale do Indo. Do ponto de vista histórico, essa idéia pareceu-lhes lógica, de vez que o terceiro milênio anterior à era presente fora particularmente favorável ao florescimento de civilizações; na China, no Egito, às margens do Golfo Pérsico e na Mesopotâmia, as comunidades agrícolas propiciaram o surgimento de culturas de vigor e refinamento sem precedentes.
Os especialistas procuraram então identificar o curso progressivo das influencias civilizadoras que chegaram até as populações estabelecidas nas planícies do Indo. Entretanto, John Marshall, que inicialmente falara de um "estreito liame cultural" com a Suméria, passou a defender a idéia de que a civilização urbana do Indo era de fato exclusivamente indiana - fundada, segundo ele, no próprio solo do subcontinente indiano.
A julgar pelos machados e achas de sílex da idade da pedra encontrados em todo o subcontinente indiano, o homem apareceu bem cedo na vasta península que hoje corresponde aos territórios da Índia, Paquistão e Bangladesh. Mesmo assim, fica a pergunta: Como os seres humanos conseguiram penetrar através da formidável barreira formada pelas montanhas do Himalaia e do Hindu Kush, com 240 quilômetros de largura, 3.200 quilômetros de comprimento e quase oito mil metros de altura, postada na fronteira norte do subcontinente? Com certeza foi através dos desfiladeiros, escavados pelos cursos d'água, que os caçadores-coletores se infiltraram no sul.
Na região noroeste, os primeiros a chegar atravessaram o desfiladeiro de Khaibar e dezenas de outras passagens que lhes deram acesso ao vale do Indo e à região montanhosa do Pendjab. Adiante, eles encontraram a planície do Ganges, vasta floresta formando um arco de 3.200 quilômetros de comprimento, cobrindo a península de leste a oeste. No vale do Indo, que mudou várias vezes de leito, corria um outro rio, o Saraswati ou Ghaggar Hakra, este também descendo do Himalaia na direção sul, para desaguar no mar de Omã. A leste, o Ganges, nascido nos confins do Tibete, seguia seu curso até o golfo de Bengala, onde formava um imenso delta. A densidade da vegetação e os pântanos não encorajavam os migrantes a instalar-se na região. Os que seguiram o curso inferior do Indo até sua embocadura acabaram por chegar ao Sind, uma região árida coberta por amplas marinhas de sal e bosques de tamargueiras, formando uma moldura para o desolado deserto de Thar.
Ao sul do rio Narmada, estende-se o vasto maciço continental do Decã, limitado ao norte pela cadeia de montanhas Vindhya, e que se alteia a leste e a oeste para formar os contrafortes basálticos do Gates. Compõe-se de uma impressionante variedade de solos, desde a floresta fechada até as terras incultas, cobertas de savanas, e planícies de vegetação rala. Mais do que qualquer outra região da Índia, ali predomina o regime das monções, com invernos frios e secos e verões sufocantes e úmidos. Os povos que arriscaram ir até mais longe, na direção sul, até as planícies litorâneas da costa do oceano Indico, descobriram uma região de clima mais sadio, apesar dos verões tórridos, coberta de florestas de tecas e sândalos habitadas por elefantes, e rios cheios de peixes, sombreados por palmeiras.
Até data bem recente, ignorava-se praticamente tudo sobre as origens e o modo de vida dos primeiros habitantes do subcontinente indiano, cujos descendentes deram origem a religiões e culturas bastante elaboradas. Mas a partir das escavações realizadas em Mohenjo-Daro e Harappa, na década de 1920, os arqueólogos descobriram na Índia e no Paquistão mais de mil sítios arqueológicos pertencentes ao que hoje chamamos de civilização do Indo, ou de Harappa. Foram encontrados nesses sítios muitas evidências que confirmam a existência de liames estreitos entre essas diversas comunidades, como as cidades de tijolos construídas a partir de planos urbanísticos análogos, as cerâmicas de estilo semelhante e os mesmos sinetes gravados.
Esses sítios pré-históricos, cuja maior parte apresenta uma superfície entre 80 ares e dois hectares, estão espalhados por uma área de 780 mil quilômetros quadrados, ou seja, duas vezes maior que o território da antiga Suméria. Nenhuma civilização da idade do bronze possuía área de influência geográfica tão extensa. Durante seu apogeu, por volta do final do terceiro milênio antes de nossa era, as cidades harappianas estavam dispostas em forma de um imenso crescente, que se alongava na direção de oeste para leste, a partir do rio N armada e do planalto do Decã até Delhi, na planície gangética, passando ao norte pelas regiões paquistanesas do Sind e do Pendjab ocidental. Descobriram-se também cidades às margens dos rios que desembocam no mar de Omã, para além do delta do Indo em direção ao Irã, e alguns povoados iso- lados que se desenvolveram no Meganistão e no Beluchistão.
Os especialistas que deram seqüência às pesquisas de John Marshall procuraram com afinco não apenas determinar a abrangência da civilização do Indo, mas também realizar a tarefa, ainda mais difícil, de remontar a suas origens e avaliar seu possível impacto sobre a cultura da Índia. Sabe-se atualmente que o alvorecer da civilização indiana remonta pelo menos ao neolítico, ou seja, a sete mil anos antes de nossa era.
Mortimer Wheeler teve papel decisivo no esforço de trazer à luz a cultura de Harappa. Antes de se interessar pela civilização indiana, ele já adquirira grande renome com as escavações efetuadas na década de 1930 na Grã-Bretanha, em sítios arqueológicos da idade do ferro e da época romana. Em 1944, ele aceitou o convite do vice-rei lorde Wavell para assumir a presidência da Sociedade Indiana de Arqueologia, dona de um patrimônio arqueológico de cerca de quatro milhões de quilômetros quadrados. Após a saída de John Marshall, em 1929, a prestigiosa instituição entrara em decadência.
Wheeler, general-de-brigada, já dirigira o Instituto de Arqueologia da Universidade de Londres e entusiasmou-se com a tarefa que tinha pela frente. Se na época não era ainda grande conhecedor da história da Índia, estava perfeitamente familiarizado com os métodos de pesquisa arqueológica e as técnicas de administração de pessoal e gestão financeira. Tratou logo de reorganizar as equipes da Sociedade Indiana de Arqueologia.
A partir de 1945, o arqueólogo passou a impor aos membros da Sociedade de Arqueologia o "método Wheeler", que, em essência, consistia em escavar um sítio respeitando suas diversas camadas, e em anotar cuidadosamente o estrato em que havia sido encontrado determinado objeto. Para isso, no campo a ser escavado ele traçava um tabuleiro, no qual cada quadrado estava separado dos outros por uma barreira de areia, bastante larga para dar passagem a um carrinho de mão. As quatro muretas que cercavam cada um dos quadrados do tabuleiro tinham também a vantagem de proporcionar múltiplos pontos de vista sobre os diferentes estratos. Implantada essa fase preparatória, Wheeler dedicou-se ao estudo da civilização de Harappa, e durante os cinco anos seguintes dirigiu as escavações nas cidades de Harappa e Mohenjo-Daro, com a intenção de dar seqüência às pesquisas de Marshall e esclarecer os mistérios da cultura harappiana.
Em Harappa, Wheeler identificou - descoberta da qual muito se orgulhava - fortificações maciças de tijolo que protegiam o pequeno monte sobre o qual se localizava a cidadela. "A muralha", diz seu relatório, "tem mais de quinze metros de largura, com torres de quase dez metros, e acompanha todo o contorno da cidade. O conjunto apresenta um aspecto tipicamente feudal." Mesmo assim, o pequeno número de armas encontradas - alguns machados, adagas, clavas e pontas de flechas - não parece indicar um regime do tipo militarista. O que não impediu Wheeler de ver nos catorze alojamentos, aglutinados uns sobre os outros sob a cidadela, uma prova suplementar da existência de um governo autoritário, já que evocavam a lembrança dos alojamentos de escravos dos faraós do Egito. A presença de numerosas plataformas circulares de tijolo, numa das quais se encontrou um objeto, segundo Wheeler, parecido com um pilão de madeira, levou-o a pensar que a mão-de-obra existente em Harappa se destinava à moagem de cereais.
Em 1950, Wheeler concentrou os esforços em Mohenjo-Daro. Ele queria identificar que função teria uma construção situada a oeste de uma edificação chamada Grandes Banhos, e ruja base comportava 27 pilares de sustentação. John Marshall já a havia explorado em 1925, e suspeitara tratar-se das instalações de uma terma a vapor, devido à grande quantidade de carvão e cinzas encontrados em uma série de dutos de tijolo de um metro e vinte de profundidade cruzando o piso. Wheeler, por sua vez, considerou essas canalizações como dutos de ventilação. Ele acreditava que a enorme plataforma em sua base sustentara originalmente uma estrutura de madeira destinada à armazenagem de grãos de trigo e cevada. Os dutos subterrâneos deviam ter servido para fazer circular o ar através dos estoques de grãos, para evitar que se deteriorassem. E, como já se havia descoberto uma edificação que possivelmente servira de celeiro em Harappa, às margens do rio Ravi, parecia natural que Mohenjo-Daro também dispusesse de uma construção do mesmo tipo.
Wheeler chamou o edifício de "Grande Celeiro", e levantou a hipótese de que devia funcionar como uma espécie de banco estatal. Em troca das tarefas desempenhadas, os trabalhadores de Harappa recebiam cereais em vez de dinheiro. Essa tese, embora interessante, ficou bem longe de ser unânime; alguns pesquisadores opinaram que as dimensões do edifício não seriam suficientes para guardar o total de grãos necessário ao pagamento dos trabalhadores. Outros afirmam que o lugar pode ter servido de palácio, de templo ou de salão de reuniões.
A identificação de outro edifício, situado na parte mais baixa da cidade, suscitou menos controvérsias. A inusitada planta da construção parecia afastar qualquer possibilidade de uso residencial. Entrava-se no prédio por meio de uma porta dupla, que abria para um saguão, cercado por um círculo de tijolos de mais de um metro e vinte de diâmetro. Mais adiante, uma escada dupla de dois metros e meio de altura levava a um terraço e a pequenas salas dando para o pátio.
A presença de recipientes de alabastro e de fragmentos de esculturas espalhados pelo chão era também significativa. Entre esses objetos figurava um pequeno busto de pedra representando um personagem de barba, sem bigode, com os cabelos penteados para trás e com uma faixa presa à fronte, na qual aparece um ornamento circular e chato, idêntico ao que ele traz preso ao braço direito. Seus olhos, reduzidos a uma estreita fenda, estavam incrustados de madrepérola. Um recipiente de alabastro, quebrado em três pedaços, mostra uma efígie semelhante, na posição sentada. Essas duas peças apresentam diversos pontos comuns com uma escultura encontrada na parte baixa de Mohenjo-Daro; para Wheeler, a perfeição desses objetos e os materiais nobres com que foram realizados demonstram sua destinação: o uso cerimonial.
As pesquisas sobre os ritos celebrados nos templos das civilizações do Indo progrediram graças aos estudos de sinetes e tabuinhas gravadas ou modeladas, encontradas em Mohenjo-Daro e em Harappa, e que alguns consideram amuletos. Bem antes de Wheeler, Marshall havia percebido que muitos desses objetos representavam árvores parecidas com acácias, que floresciam dentro de terrenos murados, semelhantes ao existente no adro do templo de Mohenjo-Daro.
Os três sinetes encontrados em Harappa mostram galhos cobertos de folhas formando uma espécie de arco sobre um indivíduo do sexo masculino provido de chifres. O caráter divino desse personagem é atestado por uma figura que adorna um sinete encontrado em Mohenjo- Daro: uma pessoa, com os braços totalmente cobertos de braceletes, sentada sobre um pipal, grande árvore da família da figueira, enquanto outra pessoa eleva as mãos para ela, como a implorar. Essa última pessoa traz nas mãos um ramo de pipal com três folhas, à guisa de oferenda, motivo muitas vezes encontrado na cerâmica harappiana.
Era provavelmente essa divindade dotada de chifres, sem dúvida venerada como um espírito da árvore, que se cultuava no templo, ou mais exatamente no santuário ou no pequeno bosque de Mohenjo-Daro. Quanto à porta dupla e à dupla escada do edifício, deviam servir para canalizar o fluxo de entrada e saída dos fiéis do templo.
Para Marshall, as divindades de chifres da Fertilidade, cercadas de árvores - ou mesmo uma delas, dando à luz uma árvore -, presentes nos sinetes do Indo seriam protótipos de Devi, símbolo da prosperidade e da abundância na religião hindu. Tais divindades, ao que parece, tiveram papel importante no culto doméstico da civilização do Indo, a julgar pelas numerosas figuras da deusa-mãe - caracterizadas com seio opulento, ancas largas, penteados muito elaborados e cintos finamente adornados - encontradas por Marshall e Wheeler. Hoje em dia, os hindus, tal como seus antepassados remotos, veneram figuras semelhantes, feitas de barro, madeira ou bronze, que testemunham a continuidade da cultura indiana.
Além das informações que trouxeram sobre as práticas religiosas da civilização de Harappa, os sinetes contribuíram para elucidar o mistério da organização e funcionamento daquela sociedade. A julgar pelos sinetes encontrados na Mesopotâmia, nos quais se conseguiram decifrar os caracteres cuneiformes, as inscrições deveriam mencionar o nome do proprietário do objeto, bem como seus títulos. Mas, apesar de todo o esforço dos lingüistas e arqueólogos, ninguém conseguiu descobrir o segredo da escrita harappiana. Nos últimos anos, porém, três pesquisadores - lravatham Mahadevan, da Sociedade Indiana de Arqueologia, Asko Parpola, finlandês, e Walter A. Fairservis Jr., do Vassar College de Nova York - conseguiram avançar muito na compreensão da estrutura gramatical desse sistema gráfico.
Com base nas conclusões de Fairservis, foram registrados 419 signos, número muito extenso para um sistema alfabético como o sânscrito, e muito restrito para uma escrita do tipo logográfico, como o chinês, no qual cada sinal corresponde a uma sílaba com sentido próprio. O sistema gráfico da civilização do Indo seria logossilábico: associaria pictogramas correspondentes às palavras com sinais empregados com função fonética. Um único sinal pode designar um objeto concreto, tal como um balde, e ao mesmo tempo transcrever um homófono de sentido completamente diferente. Por exemplo, um pictograma em forma de dois laços apertados por um barbante pode, conforme o caso, estar fazendo referência ao plural da palavra “nó” ou ao pronome pessoal "nós".
Mas antes de poder identificar os homófonos que o sistema pictográfico da civilização do Indo permitia transcrever, Fairservis e Parpola tiveram de decidir a que língua ou a que família de línguas pertenciam. Tal como muitos outros especialistas, eles optaram pelo dravídico, idioma ainda hoje falado por mais de cem milhões de pessoas no sul da Índia, bem como pelos habitantes de antigas comunidades das regiões montanhosas que margeiam a planície do Indo.
O dravídico é particularmente rico em homófonos; assim, a palavra min, que significa "peixe", designa também as estrelas - pois os dois termos provêm, com toda a probabilidade, de uma raiz verbal muito antiga, min, que significa "cintilar". Dentre os pictogramas que figuram nos sinetes da civilização de Harappa, o do peixe é dos mais freqüentes; está muitas vezes associado a uma série de entalhes verticais, que Parpola e outros especialistas identificaram como numerais. Considerando o papel desempenhado pela homonímia nessa língua, o conjunto poderia representar uma constelação celeste na qual o número de estrelas seria figurado pelo número de traços que acompanham o pictograma.
Se essas deduções são exatas, um peixe precedido de seis entalhes designaria as Plêiades, grupo de seis estrelas na constelação de Touro. Os sinetes da Mesopotâmia quase sempre associam corpos celestes ao nome de uma pessoa a quem se quer render alguma homenagem. O fato de certas constelações, como as Plêiades, figurarem nos sinetes de Harappa e Mohenjo- Daro pode significar que os homens da civilização do Indo faziam remontar sua linhagem até as entidades cósmicas, como o Sol, a Lua e as estrelas. Segundo a tradução de Fairservis, a inscrição de um dos sinetes dizia: “Arasamban, grande chefe entre os chefes do sudoeste, da linhagem da Lua”.
Para Fairservis, esse gênero de referências ao mundo celeste devia servir para indicar que determinado personagem pertencia a um grande grupo tipo clã, a uma entidade social em que a defesa dos interesses comuns tivessem mais importância que os laços familiares. Em vez de usar nomes e títulos, citados com a ajuda do sistema gráfico, a filiação a determinado clã era talvez identificada por uma imagem gravada no sinete, representando na maior parte dos casos animais como o touro, o rinoceronte ou o elefante. Dessa forma, um sinete identificado por um paquiderme indicaria que seu proprietário fazia parte do clã do Elefante.
Dentre as inúmeras imagens que figuram nos sinetes encontrados no território da cultura de Harappa, a do bovídeo unicórnio é a mais freqüente. O antropólogo indiano Shereen Ratnagar concluiu que o clã do Unicórnio devia ter uma posição dominante na sociedade harappiana. Nos contos da Índia do primeiro milênio, esse animal fabuloso simboliza a força sobre-humana e semidivina conferida pela castidade, Portanto, os membros do clã do Unicórnio pertenciam a uma elite dirigente de sacerdotes. Cerca de 64 por cento dos sinetes representando esse animal provêm de Mohenjo-Daro, centro cerimonial de grande importância segundo Fairservis; vinte por cento foram encontrados em Harappa e o resto nas outras comunidades harappianas.
No estado atual das pesquisas, é extremamente difícil determinar se o clã do Unicórnio constituiu ou não uma classe de sacerdotes. Mas parece certo que seus membros tinham um papel importante no intercâmbio com as civilizações longínquas. Cerca de doze sinetes harappianos foram descobertos pelos arqueólogos nos sítios da Mesopotâmia e do Irã, quatro dos quais apresentam como motivo decorativo o bovídeo de um só chifre.
A natureza e a importância das relações comerciais e da civilização de Harappa são invocados nos textos de caracteres cuneiformes desencavados na Mesopotâmia. Uma tabuleta de argila que remonta a uma data em torno do ano 2350 a.C. relata que grandes embarcações provenientes das longínquas regiões de Dilmun, de Magã e de Meluhha fizeram escala no porto mesopotâmico de Agade, e que seus porões estavam abarrotados de tesouros.
Os especialistas, após um estudo minucioso dos lugares geográficos e dos mercados citados nos documentos da época, conseguiram localizar os países misteriosos de onde provinham as embarcações. Dilmun, situada à margem do "mar Inferior" sendo o texto da tabuleta, correspondia à ilha de Bahrein, no Golfo Pérsico, enquanto Magã seria justamente o território de Omã e as terras situadas nas margens norte e sul do golfo. Quanto à Meluhha, a mais longínqua dessas regiões, ocultava o litoral oriental do mar de Omã - ou seja, os COnfIns do Irã e da Índia - e o vale do Indo.
Meluhha abastecia a elite - restrita mas poderosa - da Suméria gêneros de luxo ou exóticos e de matérias-primas de grande procura como as madeiras de lei, as mesas marchetadas, macacos amestrados, pentes de marfim, peles e também pérolas e pedras de cornalina e de lápis-Iazúli para a fabricação de ornamentos luxuosos. Todos esses produtos, com exceção do último - ruja exata procedência por muito tempo se ignorou -, provinham do reino de Harappa.
A partir de 1975, com descoberta de um posto avançado da civilização do Indo nas montanhas afegãs, ficamos sabendo onde os harappianos compravam lápis-Iazúli. Em Shortugai, situada às margens de um afluente do rio Oxus, cerca de 800 quilômetros ao norte do vale do Indo, uma equipe de arqueólogos franceses dirigida por Remi-Paul Francfort descobriu uma aldeia mineira que cobria uma superfície de quase dois hectares e meio e estava cheia de objetos harappianos. Em meio a fragmentos de tijolos fabricados à maneira da cultura do Indo, havia um sinete decorado com um rinoceronte, louças do tipo harappiano e sobretudo um conjunto de instrumentos e utensílios que denunciava as atividades de seus moradores: cadinhos de argila, lâminas e verrumas de sílex para perfurar as pérolas, pedaços de ouro e de chumbo e grandes quantidades de lápis-Iazúli, cornalina e ágata. Animais de carga e carros de boi carregados de pedras brutas e de objetos acabados deviam partir em direção ao sul e pelas rotas das caravanas ao longo do vale do Indo. Posteriormente encontrou-se no Beluchistâo outra mina de lápis-Iazúli explorada pelos harappianos.
A civilização do Indo mantinha relações comerciais também com a região de Omã, na margem oposta do mar de Omã, a julgar pelas numerosas pérolas de cornalina gravadas, pelas armas de bronze típicas da civilização do Indo e por outras cerâmicas harappianas ali encontradas. Com seus navios abarrotados de mercadorias, os mercadores navegavam pelo golfo Pérsico até Dilmun. Essa cidade fortificada da ilha de Bahrein - onde predominavam a limpeza e a moralidade e cujos habitantes gozavam de impressionante longevidade - era um poderoso centro comercial, por onde transitavam os produtos oriundos do vale do Indo.
Em 1957, uma equipe de arqueólogos dinamarqueses dirigida por T. G. Bibby descobriu em Dilmun uma série de pesos idênticos a outra, anteriormente escavada em Mohenjo-Daro. Esses pesos, de vários tamanhos, eram esculpidos em calcário, ardósia, esteatita, sílex negro e gnaisse. O que revela que os harappianos efetuavam transações comerciais com diversos gêneros de mercadorias. De fato, uma série de pesos de que dispunham ia desde minúsculos cubos destinados a pesar especiarias até enormes blocos com que avaliavam o peso de rochas de minérios. Os especialistas que realizaram as escavações em Dilmun descobriram ainda doze sinetes de forma bastante estranha, não quadrados, mas redondos, cobertos de signos e de imagens características da cultura de Harappa. Esses sinetes deviam pertencer aos mercadores que viviam na região do golfo Pérsico e serviam de intermediários nas trocas entre o vale do Indo, do golfo e a Mesopotâmia.
A partir da década de 1950, quando o arqueólogo indiano Shikarpur Ranganath Rao descobriu um desses sinetes do golfo Pérsico no porto de Lothal, na entrada do golfo de Cambay, a sudoeste do reino de Harappa, alguns especialistas passaram a afirmar que as trocas comerciais funcionavam nos dois sentidos. Até então, na verdade, ninguém tinha conseguido provar a ocorrência de importações da região do golfo Pérsico para o vale do Indo, apesar de se terem encontrado textos em caracteres cuneiformes da cidade de Ur documentando embarques de lã, tecidos, roupas, couro, azeite e cedro, destinados a Meluhha. Mesmo assim, até hoje a hipótese de que tenha havido comércio marítimo entre a Mesopotâmia e a civilização do Indo não obteve reconhecimento unânime.
Seja como for, Shikarpur Ranganath Rao também encontrou no Isítio de Lothal vestígios de um mercado organizado, o que pode significar que a cidade serviu de entreposto para um sistema de trocas comerciais entre diferentes regiões de cultura harappiana. Ele escavou em um local desse sítio arqueológico as fundações de um grande edifício, certamente um armazém para estocagem de gêneros destinados ao varejo. No piso, Rao encontrou 77 impressões de sinetes que ainda traziam vestígios das embalagens sobre as quais estavam fixadas as plaquetas de argila indicando sua origem.
Rao descobriu também várias dependências destinadas ao artesanato, nas quais se encontravam bigornas de pedra, cadinhos, lingotes de cobre, verrumas de bronze, fragmentos de conchas e de presas de elefante. Ao encontrar em um salão central uma plataforma de trabalho com verrumas e ao lado várias salas menores com ferramentas especializadas e centenas de pequenas contas de cornalina, cristal, jaspe, opala e esteatita, em diversas fases de acabamento, Rao compreendeu que ali estavam vestígios de uma oficina para fabricação de adereços.
Como nenhuma das matérias-primas dos artigos fabricados em Lothal provinha dos arredores, o arqueólogo Gregory Possehl, do museu da Universidade da Pensilvânia, levantou a hipótese de que a cidade deveria dispor de uma rede de fornecedores que a abasteciam dos produtos de que tinha necessidade. Dessa forma, a cidade era uma zona de abastecimento e um centro distribuidor de grande variedade de gêneros exóticos, dos quais muitos eram transformados em objetos de luxo, destinados aos florescentes mercados das outras cidades harappianas, aos portos de Dilmun e talvez até mesmo à longínqua região da Suméria.
Durante muitas décadas, a questão das possíveis influências que as trocas comerciais exerceram sobre o desenvolvimento da cultura de Harappa provocou acaloradas discussões entre os arqueólogos especialistas na civilização do vale do Indo. Para Mortimer Wheeler, o comércio estaria na própria origem da civilização harappiana. Algumas idéias civilizadoras provenientes da Mesopotâmia teriam vindo junto com as mercadorias e teriam sido adaptadas ao contexto local por um pequeno grupo de habitantes do vale do Indo, entusiasmados pelos relatos fabulosos contados pelos mercadores a respeito de Kish e Ur.
A tese de Wheeler parece confirmada, ao menos parcialmente, por suas pesquisas em Harappa e em Mohenjo-Daro em 1946 e 1947. Durante as escavações efetuadas nas muralhas que cercavam Harappa, descobriram-se cacos de louça de barro vidrado e objetos que Wheeler acreditou pertencerem "a uma cultura diferente, talvez até mesmo estrangeira". Em Mohenjo-Daro, onde as camadas mais antigas de ocupação haviam sido submersas pela elevação dos lençóis freáticos, o arqueólogo cavou até uma profundidade de cerca de cinco metros abaixo do nível da água e foi obrigado a recorrer a bombas elétricas para manter seco o local por pesquisar. Sob os vestígios do período de franca expansão da cultura de Harappa, ele descobriu fragmentos de uma cerâmica que Leslie Alcock, um de seus colegas, qualificou de "rudimentar, vigorosa e insólita".
Para Wheeler, não seria aceitável que "culturas e objetos grosseiros" tenham podido manter qualquer relação com as brilhantes cidades, sabiamente organizadas, da civilização do Indo. Esses cacos não poderiam provir senão de populações não organizadas, logo eclipsadas pelos harappianos, que eram muito mais eficientes e empreendedores. Mas, como se viu depois, Wheeler estava enganado.
Em 1955, Fazal Ahmed Khan, responsável pelo Instituto de Arqueologia do Paquistão, iniciou as escavações de Kot Diji, uma cidade da cultura de Harappa situada à margem esquerda do Indo, cerca de quarenta quilômetros a leste de Mohenjo-Daro. As escavações desse sítio, que cobre uma superfície de pouco mais de dez hectares, revelaram 16 níveis de ocupação. Os estratos 1 a 3 continham objetos e construções que datam do apogeu da civilização do Indo. Mas a partir do nível 4, que remonta a um período por volta do ano 2590 a. C., os arqueólogos encontraram vestígios de cerâmica e de outros objetos idênticos àqueles descobertos dez anos antes nos estratos ditos "pré-harappianos" de Mohenjo- Daro e de Harappa, e. que, segundo Wheeler, não podiam provir senão de uma "cultura diferente, talvez mesmo estrangeira".
Essa descoberta nada tinha em si mesma de propriamente surpreendente. Mas o que se mostrou bem mais significativo foi que grande parte da louça de barro vidrado de Kot Diji apresentava, além das bordas largas, características das formas adotadas pela cultura do Indo, traços próprios indicativos do período mais florescente da cultura harappiana: divindades corníferas, antílopes estilizados, pavões e escamas de peixe.
Além disso, os vestígios dessas construções pareciam apresentar muitos outros pontos em comum com as grandes cidades do Indo. A cidade era cercada por uma grande muralha de pedra. Fora dela, havia um bairro residencial rujas casas se dispunham segundo um plano bem definido. As casas de pedra e tijolo assentavam-se sobre alicerces de calcário bruto; em uma delas havia mesmo um amplo banheiro. O piso das moradias estava juncado de objetos em estilo harappiano, sobretudo estatuetas da deusa- mãe, miniaturas de carros de boi que serviam de brinquedo, braceletes de quartzo, pontas de flecha de bronze e ornamentos de cobre.
Mais tarde, os arqueólogos descobriram vários outros sítios que apresentavam as mesmas características de Kot Diji, principalmente em Amri, Kalibangan e Rehmandheri, bem como nos vales da planície do Indo. Na verdade, as cidades do início da cultura de Harappa eram quase tão numerosas quanto as do seu apogeu. As teses que até então prevaleceram começaram a ser postas em questão. Em 1970, um paquistanês, Mohammad Rafique Mughal, propôs uma nova teoria para explicar o desabrochar da civilização do Indo, por volta do ano 2500 a.C. Com toda a certeza, e contrariamente à tese de Wheeler, essa cultura nada devia ao Oriente Próximo e constituía o clímax de um processo iniciado séculos antes no vale do Indo.
Os arqueólogos empenharam-se então em pesquisas para de- terminar a que época remonta o alvorecer da cultura harappiana. Walter A. Fairservis, do Vassar College de Nova York, e Beatrice de Cardi, do Instituto de Arqueologia da Universidade de Londres, executaram de forma independente uma série de escavações em diversos sítios do vale do Indo e do Beluchistão, região de altiplanos batidos pelo vento e de vales áridos situados em volta do mar de Omã. Suas pesquisas chegaram a resultados no mínimo surpreendentes: nem mesmo os sofisticados recursos proporcionados pela datação por carbono 14 conseguiram situar nenhuma dessas povoações em data anterior ao ano 4000 a.C., ficando a maior parte entre os anos 3000 e 2500 a.C. Alguns historiadores basearam-se nessas conclusões para reacender a tese da procedência ocidental. Os ancestrais diretos dos harappianos teriam deixado a altiplano iraniano e o sul da Ásia central, por volta do final do quinto milênio; teriam então penetrado nos vales elevados do Meganistão, depois do Beluchistão, e em seguida prosseguido lentamente para norte e para leste até as férteis planícies do Indo, onde se fixaram. Mas essa interpretação, embora plausível, não tardou a ser questionada, como de resto ocorreu com todas as que as teorias que a precederam.
Em 1973, os arqueólogos da missão francesa ao Paquistão e do Instituto de Arqueologia do Paquistão exploraram a zona de Mehrgarh, na planície aluvial de Kachhi, no Beluchistão, cerca de 200 quilômetros a noroeste do Indo. A partir da descoberta de um oiteiro com vestígios que remontavam no mínimo ao quarto milênio, os pesquisadores realizaram escavações mais completas no local. Sob a direção de Jean-François Jarrige, eles descobriram, em dezembro de 1974, uma zona com área de cerca de dois hectares, na qual localizaram diversos sítios que haviam sido ocupa- dos em diferentes épocas. Ficou a impressão de que, ao longo dos milênios, os habitantes de Mehrgarh tinham ido aos poucos se deslocando para o sul, abandonando cada vez sua cidade antiga para construir outra nova. A povoação mais antiga dataria do sétimo milênio a.C., e a mais recente teria sido habitada por volta do ano 2500 a.C., ou seja, nos primórdios do que chamamos a civilização de Harappa propriamente dita.
Para os especialistas, o sítio mais interessante de Mehrgarh encontrava-se pouco mais de oitocentos metros a norte do oiteiro que havia inicialmente atraído sua atenção. Durante o século xx, o rio Bolan, que corre próximo dali, mudou de leito e desnudou os diferentes estratos de um talude. A análise pelo carbono 14 revelou que um fragmento de carvão de madeira conservado em um dos níveis mais antigos - um povoado de cabanas feitas de tijolos de barro cobertos de cascalhos e de pequeninas lâminas de sílex - remontava ao sexto milênio. E sob essa camada, de mais de oitenta séculos, havia ainda uma camada de mais de nove metros de sedimentos. Jean-François Jarrige calculou que os primórdios desse sítio neolítico remontavam a uma data por volta do ano 7000 a.C., ou seja, três milênios antes do aparecimento de outros sítios conhecidos da região do Indo.
O estudo do conteúdo das terras de Mehrgarh revelou-se uma fonte de informações, cada uma mais fascinante que outra. Nos detritos da parte mais antiga do sítio, Lorenzo Costantini, do Museu Nacional de Arte Oriental de Roma, recuperou impressões de grãos de cereais que identificou como de cevada descascada em duas fileiras, trigo candeal, cevada de seis fileiras e trigo destinado à fabricação de pão. Mehrgarh figura entre as primeiras regiões do mundo onde se cultivaram cereais.
No começo de sua história, os habitantes da região completavam sua dieta alimentar com a carne de animais da planície de Kachhi. Na década de 1980, Richard Meadow, especialista em zooarqueologia da Universidade de Harvard encontrou, nas camadas mais antigas do sítio, ossadas de doze espécies de animais de caça de grande porte, entre outros o cervo axis, o antílope negro, o búfalo da Índia, a cabra selvagem e o porco montês. O sábio americano registrou igualmente que a partir de meados do ano 6000 a.C. houve uma grande mudança, pois não encontrou praticamente senão ossos de animais domésticos - carneiros, cabras e bois -, indicando uma passagem do estágio da caça para o da criação. Por volta do ano 5500 a.C o gado tornou-se um elemento essencial para a economia da região, tal como foi mais tarde para a civilização de Harappa.
Os habitantes de Mehrgarh viviam em casas estreitas de tijolos, entre as quais se encontravam túmulos cobertos também de tijolos. Gonzague Quivron, da missão arqueológica francesa, escavou mais de trinta dessas sepulturas, nas quais descobriu um verdadeiro tesouro composto de pequenas lâminas de sílex, de machados de pedra polida, pães de ocre vermelho e recipientes de pedra. Além disso, ao lado das ossadas havia cestas calafetadas com betume de forma a proteger e conservar seu conteúdo, sem dúvida jujubas e tâmaras.
No fundo dos túmulos estavam espalhadas contas de pérola, de lápis-lazúli e de turquesa. Sobre a tíbia de um esqueleto de criança encontrou-se uma conta cilíndrica de cobre. Para o arqueólogo Jean-François Jarrige, a presença desses materiais raros significa que no neolítico havia uma rede de trocas ligando Mehrgard ao mar de Omã, ao Meganistão e à Ásia central. Ao sul do oiteiro mais antigo, em uma zona que data do quinto milênio a.C., os arqueólogos descobriram vestígios de vários edifícios espaçosos de forma retangular. Cada uma dessas construções de tijolo se subdividia em dez compartimentos desprovidos de portas, dos quais um mostrava marcas de grãos de cevada e trigo. Jarrige deduziu que esses edifícios serviam de entrepostos de grãos e que podiam ter servido de protótipo para os silos de Harappa e de Mohenjo- Daro.
Por volta do fim do quarto milênio, as habitações evoluíram e as casas passaram a contar com dois níveis, com um espaço exíguo embaixo para guardar utensílios de terracota. A cerâmica de Mehrgard, quase sempre muito bonita, compreendia taças, tigelas e jarros decorados com figuras de animais e desenhos geométricos, sobretudo peixes estilizados. A julgar pelas grandes quantidades de cacos de louça encontrados no sítio, parecia ter havido mesmo uma produção em massa. A descoberta por Françoise Audouze e Catherine Jarrige, duas pesquisadoras do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, de uma zona em que abundavam fornos veio confirmar essa hipótese. Um desses fornos continha mais de duzentos recipientes, que evidentemente foram abandonados no lugar após algum incidente que determinara a paralisação do processo de cozimento.
Durante os dez últimos séculos da história de Mehrgard, ou seja, de 3500 a 2500 a.C., vemos aparecer sinetes de terracota e osso, bem como figuras de deusas-mães de seios pendentes e fantástico penteado. Data também desse período uma gigantesca plataforma que devia fazer parte de um complexo monumental e que prefigura as cidadelas construídas sobre elevações artificiais da época de Kot Diji e de Harappa.
Mehrgard foi misteriosamente abandonada por volta do ano 2500 antes de nossa era; entretanto, uma nova povoação, conhecida pelo nome de Nausharo, formou-se em seguida cerca de cinco quilômetros ao sul. O estudo dos diferentes níveis de ocupação desse sítio mostrou que ele conhecera um período do tipo merhgariano, depois um estádio intermediário, antes de tornar-se uma florescente cidade harappiana. Com as escavações de Fazal Ahrned Khan em Kot Diji e a descoberta de Mehgard e de Nausharo por Jean-François Jarrige, os arqueólogos puderam finalmente reencontrar a pista das origens da civilização que se desenvolveu no subcontinente indiano. Ao contrário do que vários especialistas afirmaram por muito tempo, a brilhante cultura de Harappa não surgiu após uma invasão ou por influência de idéias civilizadoras. Ela é resultado de um longo esforço, da soma de talentos especiais e das elaboradas crenças das populações nativas.
A civilização do Indo levou cerca de cinco mil anos para formar- se. As pesquisas do arqueólogo britânico Raymond Allchin, da Universidade de Cambridge, revelaram que a partir do ano 3000 a.C. elementos característicos da cultura harappiana apareceram em todo o vale do Indo. Quanto à idade de ouro desse período da história do Índia, do qual as grandes cidades de Harappa e de Mohenjo-Daro constituem a mais perfeita expressão, numerosos especialistas concordam em reconhecer que deve ter durado de 2600 a 2500 a. C., ou seja, pouco mais de um século apenas.
Entretanto, estudos recentes tendem a provar que nem todas as regiões do vale do Indo tiveram seu apogeu ao mesmo tempo nem da mesma maneira. Assim é que escavações realizadas no final da década de 1980 por George F. Dale Jr., da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e Jonathan Mark Kenoyer, da Universidade de Madison, em Wisconsin, revelaram que de 3300 a 2600 a.C. a grande metrópole de Harappa passou por uma longa fase de transição, durante a qual evoluiu de uma povoação semelhante a Kot Diji para uma cidade do porte da harappiana. Por outro lado, algumas cidades da época koti-dijiana, longe de conhecerem a grande mutação que transformou muitas dessas povoações em cidades, conservaram as características culturais até o segundo milênio. Em outros sítios, parte dos objetos e das cerâmicas datava dos precursores da cultura de Harappa, e outra parte do período da plena expansão da civilização do Indo, o que dá a entender que um mesmo lugar conheceu simultaneamente dois estádios.
Dois antropólogos, Jim Shaffer, da Universidade de Case Western Reserve, e Diane Lichtenstein, da Universidade Baldwin-Wallace, tentaram explicar como a civilização harappiana pôde florescer sem fazer desaparecer certos elementos do período de Kot Diji. A presença simultânea desses dois níveis de cultura dever-se-ia ao fato de que populações nativas do vale do Indo compreendiam diversos grupos étnicos, embora muito próximos uns dos outros e compartilhando a mesma tradição cultural. Além de terem em comum o costume de construir seus prédios de tijolos e moldar figuras em terracota, essas etnias faziam parte de um mesmo sistema econômico baseado essencialmente na agricultura, e no qual as fortunas eram avaliadas sobretudo pelo número de cabeças de gado que um indivíduo possuía.
Tendo-se por base a tese de Shaffer e Lichtenstein, durante o século XXVI a.C. os harappianos se tornaram o grupo étnico mais forte do vale do Indo. Teriam então assimilado várias etnias de menor importância, e também acumulado grandes riquezas em forma de rebanhos bovinos. A necessidade imperiosa de encontrar pastagens suficientemente amplas para esses rebanhos poderia explicar em parte a formidável expansão da cultura de Harappa pelas planícies do Indo.
Essa brilhante civilização extinguiu-se de forma quase tão súbita e bruta quanto a do seu aparecimento. A notável cultura que está na origem das soberbas metrópoles de Harappa e de Mohenjo-Daro parece ter pura e simplesmente desaparecido entre 1800 e 1500 a.C., e dela nada ou quase nada sobreviveu. Diversas hipóteses, todas não muito satisfatórias, procuram explicar as causas desse brusco declínio. Que teria acontecido aos habitantes das cidades do Indo? Que influência exerceu a cultura de Harappa sobre as civilizações que a sucederam no subcontinente indiano? Eis outras questões polêmicas a que os arqueólogos e sábios deverão dedicar-se a fim de achar resposta em futuro próximo.

in Allchin, B. Índia Antiga. Rio de Janeiro: Abril, 1998


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